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| Foto: Gabriela Felin |
Com discurso raso, generalista, de senso comum e agressivo, o Deputado Jair Bolsonaro ganhou destaque — na boca do povo e na mídia — muito antes de se candidatar à Presidência do país. O político ficou conhecido por suas falas sobre a população LGBT, quilombolas, indígenas e mulheres, que geraram desconforto em grupos minoritários e preocupação em cientistas políticos e sociólogos, abalando os mais diversos setores da sociedade. O que surpreendeu boa parte da população foi o tamanho apoio que o político passou a receber da população ao se candidatar à presidência do país. O candidato que afirmou em seus discursos que mulheres devem receber menos que homens porque engravidam, que em seu governo indígenas não teriam um centímetro de terra sequer, que quilombolas não servem nem para procriar e que crianças que apresentam trejeitos associados à homossexualidade devem ser "corrigidas" através da agressão, surpreendeu a muitos ao bater 46,03 % dos votos no primeiro turno das eleições de 2018.
A pergunta que fica entalada na garganta daqueles que não compactuam com tais discursos é: como pode haver tantas pessoas que concordam com esses absurdos? Talvez a recente entrevista dada pela atriz Regina Duarte ao Estadão sirva de exemplo para responder essa pergunta. Os eleitores que apoiam Bolsonaro não acreditam que ele realmente se encaixe nos adjetivos atribuídos a ele em decorrência de seus discursos. Como pode-se observar nas próprias afirmações da atriz, acredita-se que o suposto tom homofóbico, machista e racista dos discursos do candidato são "da boca pra fora" Sendo assim, há uma evidente relativização da agressividade e dos exageros discursivos do candidato.
Em uma entrevista dada ao Gazeta do Povo, um empresário, que afirma ser eleitor do político, diz não acreditar que ele seja machista e que seu tom agressivo não é proposital, mas se trata de um recurso para dar ênfase ao seu discurso. O mesmo empresário também afirma que as falas do candidato a respeito dos quilombolas, apesar de duras, tiveram como objetivo apenas atacar os benefícios cedidos pelo Governo a essa população, aliviando o tom racista das declarações do político. Ainda na mesma matéria, uma outra eleitora do candidato afirma que ele não é racista, pois se o fosse ela não votaria nele por ser negra. A mesma eleitora afirma desconhecer as declarações do candidato sobre quilombolas. Ela também se posiciona de modo contrário às cotas raciais, afirmando que o sucesso de negros depende unica e exclusivamente da dedicação deles, ignorando as diferenças sociais entre brancos e negros que são resquícios da escravidão no país.
As afirmações dos eleitores que defendem o caráter do candidato não se limitam apenas aos noticiários, elas também abarrotam as redes sociais, muitas das vezes por meio de perfis falsos usados para promover o presidenciável. Experimentei, por meio de grupos do facebook, questionar os apoiadores do político sobre tais falas polêmicas para tentar compreender o que pensam. A maioria dos meus questionamentos foi respondida com frases limitadas e genéricas que buscavam me atacar pelo simples fato de eu estar fazendo perguntas a respeito de afirmações do candidato que os tais consideram "fake news". Mesmo citando matérias oriundas de jornais sérios e reconhecidos por sua qualidade e linkando vídeos em que o próprio candidato discursa em tom ofensivo e odioso, boa parte de seus eleitores me respondeu alegando que as fontes que eu citava não eram confiáveis, pois todas pertenciam ao PT (Partido dos Trabalhadores), e que os vídeos eram montagem e distorciam o suposto discurso "verdadeiro" do candidato. — A imprensa de esquerda é que inventou que o Bolsonaro é racista e homofóbico. O ex sogro dele é negro, ele até tem o apoio da Karol Eller que é sapatão (sic) — Disse um dos eleitores questionados.
Por sorte, ou azar, alguns eleitores resolveram me responder com maior complexidade, reproduzindo o mesmo discurso presente nas falas da atriz Regina Duarte e das pessoas entrevistadas pelo Gazeta do Povo: "Aquilo que ele falou sobre bater no filho quando ele começar a ficar meio gayzinho (sic) foi da boca pra fora, no calor da situação. Você tem que entender que ele estava sendo pressionado e atacado por grupos LGBT e na hora da raiva a gente fala besteira mesmo. Ele é assim, um homem muito sincero e espontâneo, é por isso que vou votar nele também, pela transparência e sinceridade dele. Ele também é muito sensato, até se retratou por essa fala, pode pesquisar aí", afirmou um eleitor.
Questionada sobre o compromisso que Bolsonaro assinou para combater o casamento homoafetivo e sobre a ameaça de encarceramento e expulsão que o candidato fez a opositores, uma eleitora respondeu: "Ah, ele não vai fazer isso, ele só quer defender os direitos cristãos. Um homossexual não pode querer obrigar um padre ou um pastor a casar dois homens, como estão fazendo por aí. Eu sou cristã, não concordo com isso. Eu respeito, mas querer obrigar os evangélicos a concordar é demais, vai contra a nossa fé. E ele não vai prender ninguém por pensar diferente, ele estava falando de terroristas quando disse isso". Quando pedi para ela me apontar os terroristas, e seus respectivos atos, dos quais o presidenciável supostamente se referia, ela me respondeu: "As pessoas do MST, que invadem a propriedade dos trabalhadores, que conquistaram suas coisas com muito suor. Eles não querem trabalhar, querem ir lá e pegar o que é dos outros, isso é terrorismo sim!"
Em uma outra conversa, perguntei a um eleitor do candidato sobre as ameaças que seu político favorito fez sobre fechar o Congresso e sobre suas apologias a tortura e ao regime militar. Sem mais delongas o eleitor me respondeu: "Ele disse isso há 20 anos atrás, já mudou de ideia, é só pesquisar. Ele não vai colocar o país em ditadura militar, isso é fake news que fazem contra ele". Em seguida perguntei ao mesmo eleitor sobre o que ele faria caso seu candidato não respeitasse a democracia e cumprisse com suas "antigas" promessas de fechar o congresso. Ele respondeu o seguinte: "A gente tira ele de lá, simples. Assim como fizemos com a Dilma. Não tem que ter preocupação com isso, ele respeita o povo. Pode ver as falas dele, tá em tudo que é canto..."
Ao que parece, boa parte dos eleitores de Jair Bolsonaro vota nele esperançosa de que ele não cumpra com suas promessas caso eleito. Seus eleitores desacreditam, por mais explícito que seja o teor de seu discurso, de que ele seria capaz de limitar os direitos da população. Negam toda e qualquer informação que não venha das fontes que eles citam como confiáveis: páginas do facebook, mensagens de grupos do Whatsapp e sites e blogs relacionados ao MBL (Movimento Brasil Livre) e ao PSL (Partido Social Liberal). Talvez, pela primeira vez na história do Brasil, um candidato seja eleito não por suas propostas, mas sim pela frágil possibilidade de que ele não cumpra o que vem prometendo há mais de 20 anos, ao longo de toda sua carreira política. Seus eleitores ignoram o famoso ditado popular que diz que "é melhor prevenir que remediar" e, talvez, tamanha cegueira política leve o país a retrocessos e danos irreparáveis. Resta, aos que ainda estão lúcidos, rezar para que todos os que defendem o candidato estejam realmente certos e que não sejam somente milhares de Caitlyn Jenner iludidas pela figura autoritária que, mais tarde, retirará seus direitos.
25 de Outrubro.
Por: Peter Milanez
Por: Peter Milanez

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