e s qu e r d i n o


Fazer o que
se meu sangue é vermelho
e eu sempre deixo 
a esquerda livre?

Pois quando pequeno
mamãe me ensinou
a nunca entrar primeiro
que os condôminos
no elevador.

Ela limpava ajoelhada
lavava e zelava
cuidava da vida privada
de empresários e de economistas
enquanto me repreendia:
— Menino moleque arteiro,
não desrespeite o Doutor!

Depois,
foi o sapato furado,
a polenta servindo de jantar.
Mais tarde, foi um emprego de escravo,
de Navio Negreiro pela ferrovia,
agradecendo o pão conquistado,
bem antes de o sol despertar.

E hoje,
foi o perigo na esquina,
a morte roçando na nuca
e a poesia sendo reprimida
o que me ensinou a lutar.

Por isso já não me aborreço
com aqueles que rezam o terço
e esquecem o Cristo ferido
e o canhoto oprimido
enquanto acusam: "É ideologia!"

Pois eu, assim como Carlos,
Já nasci torto
e vim pra ser gauche na vida.
São Bernardo do Campo, 19 de Outubro de 2018.
Por Peter Milanez.

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